Trópico de Câncer
Ontem finalmente consegui terminar a belíssima obra-prima do estadunidense Henry Miller, “Trópico de Câncer”, edição da Ibrasa, de agosto de 1963 e com tradução de Aydano Arruda e prefácio, no original, da escritora francesa (e sua amante), Anaïs Nin.
Trópico se passa no momento em que Henry Miller (sim, a maioria dos livros de Miller são autobiográficos) chega à Paris, praticamente sem dinheiro e sem ter onde dormir, descrevendo a romântica Paris do fim dos anos 20, com sua verve crua, sem idealizar demais a “cidade-luz” (”Paris é como uma puta. À distância parece arrebatadora e você mal pode espera até tê-la nos braços. E cinco minutos depois você está vazio, desgostoso consigo mesmo. Sente-se logrado.“), já que passou fome e dormiu nas ruas. Tudo ali descrito se passa antes de 1931, quando teve um caso com Anaïs, que o ajudou muito (relatado no diário Henry & June). É nesta fase “pré-Anaïs” que Miller vai, aos trancos e barrancos, conhecendo a boêmia francesa, incluindo aí a literária, e começa a se firmar como escritor - apesar de não demonstrar ainda, com bem mostra toda a “raiva” contida em seu texto.
Trópico de Câncer foi publicado em 1934 com a ajuda financeira de Anaïs.
“Hoje sinto orgulho que dizer que sou inumano, que não pertenço a homens e governos, que nada tenho a ver com a maquinaria rangente da humanidade – eu pertenço à terra! (…)
“Lado a lado com a espécie humana corre outra raça de seres, os inumanos, a raça de artistas que, incitados por desconhecidos impulsos, tomam a massa sem vida da humanidade e, pela febre e pelo fermento com que a impregnam, transformam a massa úmida em pão, e pão em vinho, e o vinho em canção. Do composto morto e da escória inerte criam uma canção que contagia. Vejo esta outra raça de indivíduos esquadrinhando o universo, virando tudo de cabeça pra baixo, e os pés sempre se movendo em sangue e lágrima, as mãos sempre vazias, sempre se estendendo na tentativa de agarrar o além, o deus inatingível: matando tudo ao seu alcance a fim de acalmar o monstro que lhe corrói as entranhas. (…) E tudo quanto fique aquém desse aterrorizador espetáculo, tudo quanto seja menos sobressaltante, menos terrificante, menos louco, menos delirante, menos contagiante, não é arte. Esse resto é falsificação. Esse resto é humano. Pertence a vida e à ausência de vida.
“(…) Se sou inumano é porque meu mundo transbordou de suas fronteiras humanas, porque ser humano parece uma coisa pobre, triste, miseravel, limitada pelos sentidos, restringidas pelas moralidades e pelos códigos, definida pelos lugares-comuns e ismos.
“(…) Tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucuras, um mundo que produza êxtase e não peidos secos.
“(…) Que os mortos comam os mortos. Dancemos nós os vivos, à beira da cratera, uma última e agonizante dança. Mas que seja uma dança!” - Henry Miller em Trópico de Câncer.
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Maio 17, 2008 em 8:21 pm
Ótima leitura. Alias, Henry Miller, tem uma prosa maravilhosa, é direto na veia, principalmente nas passagens em que escreve sobre sexo. Leitura obrigatória!
abrs e sucesso!
Andrea
Maio 17, 2008 em 9:39 pm
…empresta? Te empresto o do M. Aquino
Maio 18, 2008 em 5:40 pm
Empresto sim, senhorita Sam. Depois, fazemos a troca.
Bem, eu sou muitíssimo suspeito para falar de Miller. Então, não falo nada, somente deixo minha lista de livros que já li dele: “crazy cock”, “o mundo do sexo”, “sexus”, “plexus”, “nexus”, “trópico de câncer”, “a hora dos assassinos”. aliás, estou faz tempo pra fazer uma lista de todos os livros que li nos últimos seis anos, mais ou menos. qualquer dia eu começo.