O guia de como pensam os leitores da Veja

[tweetmeme source=”romulomafra” only_single=false]ou, o guia de como os leitores devem pensar pra entender e gostar da revista Veja (*)

esta semana, voltando ao trabalho (estava de férias), um colega me indicou um livro. peguei o exemplar na mão, já conhecendo um pouco a história do mesmo, já que este colega já falara sobre e, se não me engano, li algo por cima na internet.
estava claro, pela capa, que era uma paródia ou avacalhação com “heróis latinoamericanos”. lá estavam Fidel Castro, Che Guevara, Simón Bolivar, Pacho Villa, Salvador Allende, povos pré-colombianos e até mesmo Eva Perón! tudo isso evocando a famosa capa de um disco dos Beatles, o “Sgt. Peppers and Lonely Hurt Club Band”.
pelo que entendi do livro, o óbvio é que os autores ignoraram completamente todo o contexto em que viveram estas personagens, ao mesmo tempo em que reforçam pontos negativos dos mesmos. daí, é claro, só dá pra ironizar os personagens.
certo. aí fui ler sobre os dois autores, atrás do livro. um, repórter da Veja, outro, editor da Veja.
pronto.
falei pro colega que me apresentou o livro como sendo a descoberta do século: “tá, pega, os autores são repórteres da Veja. nem preciso mais ler.”
ele, claro, ficou fulo da vida. não aceitava o fato de, em sendo os autores repórteres da Veja, estava claro, pela capa e pelo pouco que sabia do livro, que ele simplesmente reverberava o que a Veja vem dizendo há anos. o livro deveria ser uma espécie de confirmação das palhaçadas dita na revista da direita brasileira. e, provavelmente, o fez com maestria, pois, imagino, os fãs mais ardorosos da direita brasileira, devem ter gozado de tanto rir com a “verdade sendo escancarada”.
verdade que os dois autores descobriram assim, do nada. nunca antes ninguém soubera do “lado negro” de Che. ou sei lá de quem mais tiram sarro contando suas desventuras.
logo depois, meu interlocutor partir para a obviedade, quando se discute esquerda com direita: que eu era um intelectualóide de merda.
qual a novidade, vinda de quem acha que a toda a verdade dos “heróis da esquerda” está contida num livro como aquele? mas, claro, sei que foi só no calor da discussão que a ofensa foi dita. ele me conhece e sabe que não é bem assim. mas, os leitores da Veja, fãs do PiG são assim mesmo. quando confrontados com quem sabe se defender no assunto, chamam seus salvadores, os salvadores do Brasil, como Diogo Mainardi e afins. e, “intelectualóide”, inclusive, é uma das palavras do “dicionário Veja” para criticar quem pensa à esquerda do espectro político.
normal.
mas, logo que vi os autores, perguntei se eles falavam do Pinochet.
não. não falavam.
aí, óbvio, comecei a rir e a ironizar o fato de ser um “livro da Veja”. bem, abaixo um trecho de uma crítica ao livro. se o leitor quiser pesquisar, vai achar farto material sobre o assunto na internet. ah, o nome do livro é “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”.

o trecho abaixo foi retirado daqui, e escrito por Sylvia Colombo (aliás, eu falei a mesma coisa que a autora da crítica no debate com meu colega de trabalho: que os autores tinham descoberto a roda ao falar que Che foi um personagem violento ehehehehe):

(…) Em todos os casos, ignoram a história e o contexto social que deram origem a essas figuras.

Por exemplo, no capítulo dedicado a Perón, parte-se de uma premissa simplista e equivocada. Para os autores, a Argentina, nos anos 1940, tinha “tudo para decolar”, mas foi “só Perón aparecer” que o país passou a “apontar para baixo”.

Em primeiro lugar, não é certo que tudo estava tão bem. O processo de independência argentino foi conflituoso e demorou para se consolidar. Entre 1816, quando foi declarada a emancipação, até 1862, quando Bartolomé Mitre assumiu como presidente do país unificado, houve muitos embates entre Buenos Aires e as províncias. Embates estes que estão presentes até hoje, basta analisar o conflito entre Cristina Kirchner e o campo argentino, em 2008.

Narloch e Teixeira dizem que a partir da Constituição de 1853, o país se organizou e começou a prosperar. Errado. Nesse momento, só para se ter uma ideia, Buenos Aires, a principal província, se recusava a integrar a então chamada Confederação Argentina.

A chegada dos imigrantes europeus é apresentada como um fator altamente positivo, mas os autores passam por alto pelo fato de que sua incorporação à sociedade também gerou muitos conflitos. Só para se ter uma ideia, durante a epidemia de febre amarela que atingiu Buenos Aires em 1871, os italianos foram responsabilizados pela população e hostilizados. O presidente Domingo Faustino Sarmiento (1868-1874) diversas vezes se impacientou com a falta de compromisso dos europeus com a sociedade, acusando-os de virem ao país apenas atrás de lucro fácil.
(…)
A repulsa que os autores sentem pelas culturas latino-americanas é notória e se faz notar em pequenos detalhes. Dizem, por exemplo, que mexicanos são exóticos porque celebram o Dia dos Mortos saindo às ruas para se divertir com esqueletos. Alguma explicação sobre como surgiu essa tradição, qual o tamanho da festa e o que ela significa para o povo mexicano? Nada. É coisa de quem provavelmente sai muito pouco do próprio bairro.
(…)
Não se trata de ser contra revisões da história. Mas que sejam feitas tentando entender a história, não folclorizando seus personagens e lendo tudo o que foi dito antes como obra de historiadores marxistas ideologicamente comprometidos.
Com seu “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”, Narloch e Teixeira colocam mais um tijolinho no muro de ignorância e soberba que separam o Brasil do resto do continente.

(*) Veja, neste sentido, pode-se entender como toda a direita reacionária brasileira

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