“Pero sin perder la ternura”

por Plínio Silveira (os negritos e sublinhados são meus):

Há uma expressão popularmente utilizada, um pouco chula é verdade, mas que traduz certa percepção, sobretudo quando se quer designar algo ou alguém destituído de brilho próprio, de identidade. A famosa expressão “não fede nem cheira” nos desenha algo próximo do inútil, sem valor ou, no mínimo, desprezível. Ela, a expressão, nos conduz ao discernimento de que é preciso imprimir nossa marca nas coisas que pensamos e nas ideias que defendemos. Especialmente num mundo que busca enquadrar tudo e todos dentro daquilo que nos é permitido e que tenta nos transformar numa massa amorfa e sem opinião.

ansia citacao plinioPor óbvio, quem desafia o status quo, quem resiste ao autoritarismo e quem defende seu modo próprio de ver as coisas incomoda muita gente. Especialmente incomoda aqueles que, travestidos de arautos da mudança, fazem nada mais do que reproduzir as mais retrógradas teses e práticas do conservadorismo político. Com indisfarçável naturalidade, os novos “arautos da mudança” transitam nessas teses, porque dentro delas nasceram e sob elas construíram sua particular visão do mundo.

Há várias maneiras de tentar derrotar um oponente. Desde as mais dignas até as mais cruéis. Uma das formas – dentre tantas – com a qual as elites sempre tentaram utilizar para desqualificar o Partido dos Trabalhadores, foi a de classificar seus militantes como “radicais”. Tentaram, com sucesso muitas vezes, associar à expressão o sentido de que aqueles que defendem com ardor e paixão suas idéias nada mais são do que um bando de irresponsáveis, vândalos e renegados. Tentaram isso com Lula. Tentaram isso com Dilma. Ambos, porém, provaram ao Brasil e ao mundo que há espaço para um processo civilizatório no mundo da política, onde homens e mulheres podem exercer o seu inalienável direito à opinião.

brecht rio violentoFoi a radicalidade do Partido dos Trabalhadores que construiu o Brasil que temos. Sem ela, teríamos sucumbido às armadilhas políticas de nossos adversários. É certo, entretanto, que nossa radicalidade já não é mais a mesma. Na ânsia de chegar ao poder, e ao exercê-lo, esquecemos do nosso compromisso histórico de transformar os trabalhadores em sujeitos políticos, expropriando-os da possibilidade de também sonhar com o socialismo que queremos. O máximo que conseguimos foi transformá-los em consumidores pequeno-burgueses endividados e enredados nas teias de um dos sistemas financeiros mais perversos do mundo. Sem perceber, quem sabe, estamos gestando nas mentes dos que produzem as riquezas as sementes do ideário capitalista que tanto combatemos. Estamos dando tiros nos próprios pés! Portanto, a radicalidade que nos moveu parece, aos olhos daqueles que nunca entenderam o sonho socialista, ser desnecessária. Deve, inclusive, ser combatida. Portanto, a rasa conclusão: abaixo os radicais!

Não me surpreendem, portanto, as afirmações recentemente veiculadas na imprensa local. As vozes que se levantam contra “os radicais” do PT têm a indelével marca do conservadorismo e do pensamento “neoliberosociodemoaliancista” ou algo assemelhado. E esse ideário – sic – navega com uma naturalidade espantosa nas ondas da mídia local.

Os radicais, entretanto, são claros. São de uma transparência ímpar. Deles se sabe o que esperar, porque não temem expor o que pensam ou sentem. Têm opiniões muito fortes e a força de suas idéias advém exatamente da honestidade com que as construíram. Por isso eles falam, gritam se preciso for! Erram? Com certeza erram, mas mesmo seus erros vêm acompanhados da saudável intenção do acerto. Não são “equívocos mal intencionados”, isto é, aqueles equívocos ardilosamente arquitetados e que, quando descobertos, escondem-se sob o manto sagrado do “errar é humano”. Muitas vezes confundidos com turrões, os radicais lutam até as últimas consequências na defesa de seus ideais, pois não se pode esperar frieza de um radical. Porque a história nos mostra que, amiúde, é pelo caminho da paixão que os homens fazem sua história.

rebeldesO método é tão velho quanto o próprio mundo, mas melhorou modernamente: quando se decide acabar com alguém, basta acusá-lo de todos os crimes e alardear aos quatro cantos. Se tiver a mídia a seu lado, tanto melhor! Misture-os com conhecidos mal-feitores para que o público os confunda. E repita, à exaustão, as acusações. Depois é só esperar…

Há, porém, algo que poderá estar escapando ao discernimento daqueles que atacam e condenam os “radicais” do PT. Num mundo onde a pobreza e a fome têm aumentado, em que as contradições do grande capital não conseguem se manter despercebidas, onde muitos norte-americanos defendem as teses do “Occupy Wall Street”, numa Europa em crise e que não consegue viabilizar respostas politicamente aceitáveis dentro do sistema capitalista, começa a renascer com força o ideário socialista. Poderá, quem sabe, o futuro apontá-lo como única possibilidade política para tornar nosso mundo eticamente aceitável e humanamente habitável. E, quem sabe, por ironia do destino, os “radicais” poderão ser chamados para refrescar a memória daqueles que sempre os combateram, e dar-lhes a possibilidade de melhor definir sua identidade. Quem sabe?

Plínio Silveira é filiado ao Partidos dos Trabalhadores de Itajaí

Anúncios

2 Respostas to ““Pero sin perder la ternura””

  1. Davi Coelho Says:

    Muito, muito bom. Se bem que, a gente nem deveria se importar tanto com os medíocres. Afinal, é uma mediocridade…

    Fraternal abraço Davi Coelho 04147-9613-5327. davicoelho1313@gmail.com

  2. Fabiano Muniz Says:

    Interessante é ver essa direita que vem com tudo, recheados de mentiras e xingamentos gratuitos,mas quando xingados, ventem o hábito de Madre Tereza de Calcutá e se arvoram num coitadismo sem fim.Batem e em seguida choram se dizendo agredidos.
    Pra esses qualquer um que se coloque entre eles e o objetivo deles é abominável.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: