A civilização deu errado

minha coluna da semana passada no jornal Sem Censura: 

civilizacao deu erradoNão tem como achar que estamos no caminho certo, enquanto civilização capitalista cristã-ocidental (ou oriental), quando vemos uma criança de QUATRO anos internada num abrigo da prefeitura. Ou seja, uma criança que simplesmente não tem quaisquer apoio familiar, nem pai, nem mãe, nem um dos quatro avós para lhe dar a devida guarida que ela merecia, para poder ter uma chance, ainda que não muito grande, de ter uma vida não tão ruim. Porém, ela está lá, abandonada nas mãos do Estado, nas mãos do município, e, ainda não sabe, mas as suas chances, que já eram pequenas caso ela vivesse numa família pobre, agora, estão praticamente todas contra ela! Viverá num mundo cercado por pessoas que dificilmente poderá considerar como família, provavelmente, como outras crianças e adolescentes, em alguns anos, já terá mudado algumas vezes de abrigo, enquanto a Justiça vai mudando de opinião, e, claro, sempre jogando no colo do Estado a tutela (não, não é só culpa da Justiça) de alguém que não vai conhecer direito o amor de uma mãe, de um pai, dos irmãos, avós, tios, só saberá que muitos não conseguiram dar o mínimo que ela e toda criança precisa, muitos falharam (e falharão) onde vários outros ao seu redor tiveram sucesso, e que estes muitos que falharam, incluem-se as pessoas mais importantes no mundo pra esta criança: seus pais.

E, daí, vem a nossa sociedade, hipócrita como não poderia deixar de ser neste sistema, cobrar dessa criança quando ela atinge uma idade maior, que seja uma criança bondosa, uma criança calma, que tenha “bons modos”, que não se envolva com “más companhias” (na sua maioria, crianças/adolescentes que tiveram o mesmo modo de vida). “Oras, mas eu tenho um amigo que tem um vizinho que perdeu os pais cedos, e nem por isso entrou pro mundo do crime”, dirá um “cidadão de benZ”, não tenha dúvidas. A sociedade hipócrita adora colocar uma exceção como se fosse a regra. “Ah, eu também fui um adolescente ‘arrenegado’, mas nem por isso virei um drogado”, dirá outro “cidadão de bem”. É incrível a capacidade dessa nossa sociedade (preciso repetir que somos hipócritas?) de achar que o mundo gira em torno do nosso umbigo, pois, oras, “se EU consegui, por que o outro não conseguiu? Se ele não conseguiu, bem, é um vagabundo, não quis ajuda, não trabalhou como eu”. Somos uma sociedade que prefere simplesmente apontar o dedo para o outro, do que ver que o problema está em nós mesmos (“redução da maioridade penal!!”), em nossa aceitação passiva do sistema Capitalista, marionetes que somos deste sistema caótico&imprevisível, assassino, monopolista e que nos joga todos os dias na cova dos leões, para sermos devorados pelo Capitalismo e nos salvarmos às 18h, quando voltamos para nosso esconderijo (nosso lar), aguardando o fim de semana que nos dará o gás para aturar mais uma semana de trabalho.

Porém, voltemos ao menino de quatro anos que ainda está lá, num abrigo municipal, sem pai, sem mãe, sem avós, sem o amor familiar que dará, dizem os cientistas, até os 7 anos de idade, mais ou menos, a definição do seu caráter, a definição do que e de quem será este menino. Só que, a sociedade, esta hipócrita, prefere nem saber, nem se inteirar, simplesmente, é melhor, inclusive, deixar estes abrigos bem longe da nossa casa, não?

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